Nikon Tsel é uma garota de doze anos que tenta recompor a vida em um povoado isolado, após perder toda a sua família durante um período caótico chamado de Grande Magfa. A prisão do tirano ex-presidente Baron Zolon causa revolta e força entre seus seguidores, enquanto ele tenta enganar a justiça e sair ileso.
Quando é convocada pela deusa Tsel para cumprir com a sua missão de nascença, Nik é lançada no meio de uma conspiração perigosa. O que ela não desconfia é que as mentiras de Zolon são apenas a ponta de um plano muito maior, capaz de abrir portais para forças sombrias que ameaçam destruir Ribonot.
Embora conte com o auxílio de tintas sagradas e a orientação de um anjo, nada a prepara para o conflito que se aproxima. Perseguida por demônios e sem saber em quem confiar, a pequena Nik precisará dominar o poder das sombras e trazer a verdade sobre amigos e inimigos, antes que o Dia da Noite Eterna sele o destino de seu povo para sempre.
[Chhhhhhhhhh]
“O ex-presidente recebeu a ordem de prisão hoje e está sendo encaminhado para os trâmites finais do julgamento e para as últimas etapas antes de ir para o destino final. Mesmo com toda a força dos advogados, o Tribunal Supremo manteve a condenação pela tentativa de golpe e por todas as perdas que sofremos durante o seu mandato ― a âncora noticiava na rádio local.
― Seus seguidores, em atos de vandalismo e contra o decoro da democracia nacional, fizeram greves e manifestações, o que resultou em uma sequência de prisões e revolta pelo lado de apoio ao ex-presidente ― o âncora continuou a notícia.
― Aparentemente, serem responsabilizados pelos atos não é algo que adultos funcionais aceitem. Enquanto levantam bandeiras falando sobre liberdade de expressão, expressam que o novo Governo é uma ditadura corrupta, envolvida com esquemas milionários ― a âncora completou.
― Os próximos episódios dessa narrativa vitimista serão vistos a partir dos movimentos dos congressistas de apoio ao ex-presidente, seu filho e aqueles que não perderam ninguém durante o período caótico e distópico que vivemos, onde precisamos escolher entre morrer de uma doença pandêmica ou morrer de fome! ― o âncora finalizou a notícia.”
PARTE I
Nik o olhava do alto, acompanhando seus passos nervosos e os gritos que ele soltava contra os outros três homens que temiam a sua presença. Era a única rua da Ilha Khele, ligada ao porto, onde poucas embarcações permaneciam durante os dias, mas naquele momento, encontrava-se vazia. Baron Zolon vestia a tradicional farda do exército italiano, devidamente passada, com todas as medalhas lustradas e os sapatos limpos. Seus cabelos se arrumavam para o lado, como sempre usou, demonstrando que mesmo estando em uma prisão, não perdeu a pose de militar.
Os companheiros visitantes que nunca abandonavam o local mostravam documentos, riscavam um quadro e debatiam calorosamente algo que parecia estar em discordância. Nik não conseguia escutar ou entender, devido às janelas sujas e encardidas da edificação de três andares que deveria abrigar outros prisioneiros, mas não abrigava. Somente ele morava ali.
Viu dois funcionários, o enfermeiro e a cozinheira, saírem em direção ao porto e esperarem a carona de volta à cidade de Makel.
Makel havia se transformado em um grande cenário caótico, desde o que foi chamado de A Grande Magfa. Magfa era o termo dado a um “momento de muitas mortes, perdas e mudanças drásticas” e poderia estar relacionado com guerras, crises, pandemias e golpes militares. O problema é que, por causa de Zolon, tudo isso aconteceu ao mesmo tempo.
Primeiro uma crise inventada que o colocou no poder, depois uma pandemia generalizada levou centenas de milhares, então uma tentativa de golpe, ao qual ele foi preso e por fim, o início de uma guerra.
Makel, a capital de Ribonot, foi a primeira a sofrer, mas as grandes metrópoles como Baston e Yanuar sofreram muito mais, por concentrarem a maior quantidade de pessoas e, consequentemente, terem a maior quantidade de perdas. O descontrole, o descaso, e a falta de cuidado de Zolon para com a população, levou a um genocídio tremendo. Não havia lugares para enterrarem os mortos, os hospitais e clínicas sofreram, os suprimentos acabaram, enquanto ele gargalhava e se divertia com a desgraça alheia.
Cada dia que passava era um dia de terror e só parou, por poucos meses, quando ele foi preso. Seus aliados e seguidores, manipulados pelas falas que propagavam medo e angústia, diziam que era injustiça, que tudo era diferente do que os fatos mostravam, que ele não veio para matar, ele era o “salvador” e a escolha dos deuses havia sido feita. Mas os deuses não achavam isso e Nik era a prova dessa verdade.
Nikon Tsel era descendente direta do Povo de Tsel, uma linhagem poderosa de místicos que seguia os pensamentos da justiça e verdade da deusa Tsel. Todos os filhos recebiam um nome simbólico e o sobrenome com o nome da deusa, sendo abençoados e inseridos no povo, no povoado e na cultura. Suas vidas seguiam o caminho de trazer e propagar a verdade, a justiça e evitar que o medo, a manipulação e a mentira se tornasse força no mundo. Um caminho árduo que estava enfraquecido.
Tsel era a deusa da sombra, e a sombra é a marca que todo o ser deixa do mundo, independentemente de sua condição.
Foi a relação com as sombras que Zolon usou para manipular a verdade e distribuir mentiras. Tsel começou a ser ligada com o obscuro, o errado. Histórias sobre sacrifícios, mortes, caos e até mesmo a pandemia, foram associadas ao nome dela. Zolon dizia: “Tsel mandou essa praga para nos testar, mas eu não irei aceitar essa provocação. Eu sou o seu Salvador!”.
Na noite em que Zolon foi preso, Nik recebeu a visita de Tsel.
Era um sonho lindo e o cenário era Opek, a morada dos deuses, onde o céu e a terra se encontravam. Tsel apareceu em frente à Nik, vestida com seu manto de três tons de azul escuro, com o cinturão prateado do Olhar das Sombras, os cabelos castanhos, volumosos, encaracolados, soltos ao vento com os cristais que representavam as estrelas da escuridão e o cajado com a balança da justiça. Calma, ela sorria para Nik, a chamando para perto.
― Minha filha, Nikon. As bênçãos da noite caiam sobre você! ― a voz doce e divina abraçou Nik como um acalento.
― Minha deusa... ― Nik tentou se abaixar, para a reverenciar, mas seu corpo não a obedecia.
― Não há necessidade. Você é parte de mim neste momento, não precisamos de reverências... ― a Deusa disse, e Nik concordou. ― Eu lhe trago um aviso e uma missão... ― a mão livre de Tsel dançou no ar, liberando uma névoa escura e criando formas. ― Zolon quebrou o pacto humano e divino, trouxe desgraça e sofrimento. Como um tirano, ele escolheu pela mentira, pela manipulação e pelo medo. Demos todas as oportunidades para que ele abandonasse suas ações, mas ele não nos escutou. Nosso povo sofreu e pereceu em suas mãos e hoje... ― ela respirou fundo ― o seu destino foi definido! ― A forma de Zolon que ela criou com as sombras se desfez.
― Ele irá morrer?
― Não! ― negou. ― Esse não é o nosso papel! ― Tsel se aproximou de Nik e ela pode sentir um aroma de orvalho e uma brisa da madrugada passar pela sua pele. ― Zolon não cumprirá com a sua pena. A Justiça que o prendeu será enganada e isso acontecerá até o Dia da Noite Eterna.
― Daqui alguns meses... ― Nik ponderou, e a deusa confirmou. ― E o que você irá fazer para impedir?
― Nós faremos... ― ela corrigiu. ― Nik, como bem sabe, você nasceu com a minha marca em seu peito. Você nasceu com o meu nome em sua pele e isso quer dizer muito mais do que possa imaginar. Você possui a ligação com meus dons, você é a mensageira da Verdade e da Justiça, você é a verdadeira Filha de Tsel ― a deusa apoiou a mão por cima da marca no peito de Nik e a puxou para fora, crescendo como um manto ao redor da garota.
― Eu... Você quer que eu traga justiça para todos?
― Somente você ainda possui a marca... ― um semblante de dor passou pela deusa. ― Aqueles que possuíam, Zolon levou durante a Magfa.
― Mas...
― Não tema, minha menina. Eu estarei contigo o tempo todo ― ela sorriu. ― Eu preciso, somente, que você confie em mim... ― Tsel a olhou, esperando uma resposta.
Nikon estava assustada. Sentia como se um peso enorme, uma responsabilidade, tivesse caído sobre os seus ombros. Ela era, somente, uma menina de doze anos. Ela sabia que um dia seria chamada, por ter a marca em sua pele, mas naquele momento, depois de tudo o que seu povo passou, não conseguia se enxergar sendo nada além de uma menina órfã, em um povoado abandonado e deslocado.
O semblante de dor, desespero e sofrimento de Tsel a fuzilava, como se entrasse em sua alma. Não havia outra maneira de responder aquele pedido.
― Eu... Eu confio!
― E que você escute as seguintes recomendações...
― Sim!
― Tudo acontecerá em Baston e no final do Dia da Noite Eterna, se a Justiça e a Verdade não tiver caído sobre Zolon, esse mundo sucumbirá para o mal. Uma nova Magfa caíra sobre Ribonot, em forma de uma guerra e muitos… muitos… ― ela enfatizou ― pereceram. ― enquanto a Deusa falava, Nik concordava com a cabeça, apreensiva. ― Beelash é um nome que você precisará ter cuidado, pois não há como saber se é alguém que irá ajudar ou não.
― Beelash? ― ela estranhou. ― Não conheço ninguém com esse nome...
― Esteja atenta! Zolon precisa entender o motivo de estar acontecendo e quem o fez. Ele precisa aceitar ou temer a verdade e entender que é o pagamento dos seus erros.
― Ou...
― Tudo será em vão ― Tsel a tocou no rosto. ― Eu acredito que você será a nossa salvadora...
― E a guerra?
― A guerra só acontecerá se a sua missão não tiver sucesso. Eu confio em você, mas não a deixarei sozinha ― Tsel começou a se afastar. ― Confie em mim e traremos justiça para o nosso mundo!